““Desleal à civilização”: a teoria (literária) feminista lésbica”, Beatriz Suárez Briones, Universidade de Vigo, em “conCiencia de un singular deseo”, Xosé M. Buxán (ed.), Laertes, Barcelona, 1997

 

A autora utiliza um artigo de Rubin (“Thinking sex: Notes for a radical theory of the politics of sexuality”, Gayle S. Rubin, 1984) como introdução à formulação de uma política feminista sobre o sexo, de uma política radical, que coloca a sexualidade na raiz do caleidoscópio sócio-cultural que a organiza (através do sistema educativo, médico e de saúde mental, penal, da política e da economia, como bem salienta que mostrou Foucault, e também, igualmente bem demonstrado por ele, acrescentaríamos nós, através do sistema discursivo).

Briones considera que de alguma forma é necessário recuperar a centralização da sexualidade na enunciação do discurso lésbico, querendo com isto dizer que “O feminismo deve insistir em que as mulheres são sujeitos sexuais, agentes sexuais” (Vance, 1982: 47), (cit. pela autora).

A primeira parte do seu artigo dedica-se a demonstrar como foi o próprio feminismo que diluiu a centralidade dessa sexualidade lésbica.

“Os anos 60 foram a década da segunda onda feminista. Dentro do movimento feminista cada vez mais mulheres se sentiram livres para se intitularem feministas lésbicas; para elas o lesbianismo era uma opção sexual que qualquer mulher podia adoptar (…). As feministas lésbicas declararam que lésbica era qualquer mulher que dedicava todas as suas energias a outras mulheres. O lesbianismo passou a ser considerado a quintessência do feminismo, porque o feminismo lésbico significava  pôr as mulheres  primeiro no afectivo, no social, no político e no sexual, acção que altera até à raiz a concepção patriarcal das relações humanas, nas quais o homem ocupa sempre o lugar central; significava materializar um tipo de relação revolucionária que tinha como norma a sororidade e o ginoafecto; a lésbica era também a mulher independente dos homens, a demonstração viva de que uma mulher sem homem é um ser humano completo (… ) ”. (p.263, itálico da autora).

 

Prossegue a ilustração de como o lesbianismo se afastava do estritamente sexual, com uma citação de Faderman (1991: 206), que cita o grupo nova-iorquino Radicalesbians num panfleto de 1970:

   “Uma lésbica é uma concentração de todas as mulheres condensada até ao ponto da explosão”

Este mesmo grupo definia-se como women-identified-women, mulheres que se identificavam com mulheres, ginoidentificadas.

Outra autora dos anos 70 afirmava:

(…) O lesbianismo identificado com mulheres é, pois, mais que uma preferência sexual; é uma opção política. É política porque as relações entre homens e mulheres são relações políticas; implicam poder e domínio: visto que a lésbica recusa activamente essas relações e escolhe as mulheres, desafia o sistema político estabelecido.”(citação de Charlotte Bunch, Lesbians in Revolt, cit. em Rivera, 1994:123)

Como a autora faz notar, ao longo dos anos 70 qualquer mulher tinha a capacidade de “ tomar a eleição política consciente de abandonar a heterossexualidade e tornar-se lésbica.”(p.265, itálico da autora).

Um artigo que considera central no final dessa década é “Heterossexualidade obrigatória e existência lésbica”, de Adrienne Rich. Nele a autora define o conceito de continuum lésbico como “uma gama de experiências ginocêntricas” (Rich, 1980:23), ao longo da vida de cada mulher e da história. Esta autora insiste na ideia de uma aprendizagem da sexualidade, nomeadamente na aprendizagem obrigatória da heterossexualidade, sem que haja liberdade para uma preferência sexual diferente. Esta autora ter-nos-ia ensinado a ver a heterossexualidade como uma instituição política, tendo esta posição tem sido vincada por Janice Raymond e a sua hetero-realidade, “a visão do mundo de que a mulher existe sempre em relação ao homem (1986:3), ou a ideologia de que “as mulheres são para os homens (11). Estes dois conceitos conjugam-se no heterossexualismo de Sarah Hoaghland:

(…) o domínio e incapacitação exercidos pelos homens sobre as mulheres em qualquer das formas, que vão do ataque frontal ao cuidado paternalista; e é a desvalorização pelas mulheres dos vínculos afectivos e emocionais entre mulheres, e o continuado conflito das mulheres entre responsabilidade e autonomia, de que deriva a valorização de uma ética da dependência. Heterossexualismo é uma forma de vida (…) que normaliza o domínio de uma pessoa e a subordinação de outra numa relação, com o que socava a capacidade de acção e auto-afirmação das mulheres (… ) ” (1988: 29).

O que resultou principalmente desta denúncia dos valores do patriarcado foram contra-valores, uma Lesbian Nation como propunham os 70, mas existente sobretudo na consciência fraterna das mulheres e nas infra-estruturas de inter-ajuda dela nascidas — como faz notar a autora.

O feminismo lésbico dos anos 80 dedicou-se a uma tentativa de equilíbrio desses contra-valores, notória no conflito entre as “feministas culturais e as “radicais sexuais”: as primeiras defendiam a sexualidade politicamente correcta, o sexo igualitário e baunilha; as segundas pretendiam fazer entender às mulheres que tinham direito também aos seus desejos sexuais, por pouco convencionais ou “pervertidos” que fossem (p.269, itálico da autora).

Os anos 80 foram também anos de moderação, devido ao ressurgir de sentimentos homofóbicos em consequência da Sida, o que levou à formação de mais grupos mistos de acção directa, nos 90.

 

Após ter-nos proporcionado este interessante passeio, a autora apresenta aquela que é para ela a definição mais correcta de lésbica: “a mulher que considera outras mulheres eroticamente atractivas ou gratificantes (citando R. Stimpson, 1982: 244). Com esta definição restrita a autora parece querer estabelecer um mínimo denominador comum na variedade das identidades lésbicas, complexas como todas as identidades, multi-factoriais e não necessariamente ou centralmente anti-heterossexualistas.

A autora tem plena consciência do perigo da “excessiva “romantização” da identidade entre mulheres (cit. Gallop, 1986; Zimmerman, 1992), (…) (e da) utilização de um conceito de identidade baseado fundamentalmente no anatómico e que ignore outras formas de diferença (…) entre mulheres.” (p.276). Todo o discurso é histórico, mesmo aquele que diz o corpo. Não existe uma só identidade lésbica, mas o lesbianismo não deixa de ser uma “posição de discurso” ( cit. Martin, 1988: 103), posição essa com uma história, acrescentaríamos nós.

 

Do ponto de vista da elucidação de uma escrita, ou então de uma leitura, lésbica, a sua definição preferida levanta algumas questões, como salienta a autora:

  (…) fazer da experiência sexual o critério primário onde fundar a identidade lésbica é muito problemático, porque ao longo da história a presença lésbica foi censurada e a sua existência perseguida e proibida. Se mantemos que a experiência homoerótica é imprescindível para definir a mulher lésbica estamos a ignorar existências de mulheres que amaram outras mulheres, inclusive na ausência da experiência sexual.”(p.272).

 

Pergunta-se então “(…) em que nos baseamos para etiquetar um texto como literatura lésbica, no conteúdo dessa literatura, no seu estilo, na orientação sexual da autora ou da comunidade leitora a que se dirige uma obra?”(p.273)

A estas questões responde de três formas diferentes:

“A teoria da recepção mantém que ler como é uma estratégia interpretativa; se quem lê só pode ler como o que é – por exemplo mulher, branca, de classe média, com uma formação académica…— “toda a leitura é solipsista e todos os textos hermenêuticamente inacessíveis excepto para quem já está dentro do círculo fechado (citando Jay e Glasgow, 1992: 5)”(p.274).

Esta resposta parece-nos consistente, e sem os problemas de solipsismo que lhe pretendem levantar, visto que dentro do círculo nunca está só uma pessoa (caso em que não seria um círculo mas um ponto). Usando uma terminologia wittgensteiniana, não existe só um círculo mas muitos jogos de linguagem, com familiaridades entre si, visto serem o resultado/base das formas de vida, que também se articulam, na prática, diariamente. As interpretações não são nunca universais, nem que se estabeleçam encontros com condições para um diálogo eterno, visto as estratégias interpretativas dependerem sempre dos interesses práticos dos interpretantes, e estes serem sempre conflituais em algum ponto. Roubando agora a terminologia a Rorty, dir-se-ia que não nos encontramos perante solipsismos interpretativos mas sim etnocentrismos interpretativos, sem que consigamos definir etnias ou identidades puras, já que todas se cruzam na prática.

 

Outra hipótese de resposta é a seguinte:

“(…) para Teresa de Lauretis a escrita e a arte lésbica fizeram do género sexual e da própria sexualidade um lugar de experimentação e de conflito, ao tentar “de múltiplas formas elidir o género, negá-lo, transcendê-lo ou sobreactuá-lo (perform it in excess), e inscrever o erótico em modos de representação crípticos, alegóricos, realistas, camp (“parolo”) ou de qualquer outro tipo (…(cit. em Jay e Glasgow 1992: 4) ”(p.274).

Exemplo de experimentação literária quanto ao género do sujeito, são o E/u, sujeito lésbico de “Le corps lesbien” de Monique Wittig (ver “Sexual indifference and lesbian representation”, T. de Lauretis, em “The lesbian and gay studies reader”).

 

Finalmente a terceira resposta, merece à autora o seguinte comentário:

“(…) para a escrita contemporânea a teoria lésbica adoptou uma decisão salomónica, mas certamente política: a literatura lésbica escreve o corpo lésbico. Formular o corpo lésbico como modelo de identidade lésbica é um acto revolucionário já que faz saltar em pedaços o único modelo que a cultura oferece das relações humanas: estas hão-de ocorrer necessariamente entre os sexos e ser necessariamente heterossexuais; a cultura patriarcal sancionou como paradigma da normalidade social, psíquica e linguística o contrato (hetero)sexual: para se erigir a si mesmo como Sujeito o varão tem de construir a mulher como o Outro (quer dizer, desalojar as mulheres em direcção à outridade e mantê-las nessa posição). Nesta construção dicotómica a mulher é o pólo negativo, mas também obviamente um signo exclusivamente heterossexual. A dualidade homem/mulher exclui a lésbica, torna-a impossível. É por isso que Monique Wittig (1980) num dos textos mais revolucionários de toda a teoria lésbica afirma contundentemente que a lésbica não é uma mulher.”(p.275/276).

  

A autora que influencia Briones na produção de comentários tão drásticos é  Nicole Brossard, que introduz da seguinte forma:

“Para Nicole Brossard o acto de criação é um acto de trazer-se ao mundo (ou seja, de criar-se, de dar-se - à – luz) literalmente através da palavra. A escrita lésbica toma a palavra “para dizer os nossos corpos, a nossa pele, o nosso prazer, a nossa sensualidade, o nosso sexo (…) e fazemos do nosso desejo uma espiral que nos pare em pleno movimento em direcção ao sentido. Um sentido que tem a sua origem em nós. Não um contra sentido nem uma tergiversação, que só nos arrastariam como pequenas estrelas pelo universo patriarcal (Brossard, 1985: 134/135)”, (p.275).

 

A autora termina incitando à deslealdade para com o patriarcado, tornada necessária pela centralidade que as análises culturais gays e lésbicas deram à categoria da sexualidade, tal como o feminismo tinha feito com a categoria de género.